Sábado, 10 de Janeiro de 2026

Cupuaçu ganha espaço como produto gourmet e ativo estratégico para a bioeconomia

De cosméticos a doces artesanais e cupulate gourmet, negócios amazônicos mostram como o aproveitamento integral do cupuaçu

Foto: Divulgação
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Marina Martini

17 dezembro, 2025 às 17:57

Do caroço antes descartado às sementes transformadas em cupulate, o cupuaçu vem ganhando protagonismo em uma nova geração de negócios amazônicos. Marcas como ByEssence, Cupu do Quintal e KupuLatte mostram que ingredientes nativos podem unir inovação, impacto social e conservação da floresta — e encontram apoio para escalar essa transformação na Jornada Amazônia, plataforma que atua no fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis por meio do empreendedorismo e da inovação.

ByEssence aposta em performance e bioeconomia com manteiga de cupuaçu

A marca de cosméticos naturais ByEssence encontrou na manteiga de cupuaçu um ingrediente-chave para unir performance e propósito. O hidratante facial da empresa, que combina esse insumo amazônico ao óleo de rosa mosqueta, exemplifica como ativos da floresta podem entregar resultados visíveis para a pele e ao mesmo tempo gerar impacto positivo na cadeia produtiva.
 

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“A escolha pelo cupuaçu não foi apenas técnica, mas também estratégica. Além de oferecer hidratação profunda, o uso da manteiga obtida a partir do caroço – que seria descartado – contribui para valorizar comunidades extrativistas e manter a floresta em pé”, afirma Ana Cláudia de Sousa Araújo, sócia administradora da marca. Segundo ela, a busca por ingredientes de origem natural e de alto desempenho é o que orienta a formulação dos produtos da marca, que aposta na sinergia entre ciência e biodiversidade.

No caso do hidratante, a combinação do cupuaçu com a rosa mosqueta resulta em um produto leve e de rápida absorção, que promove hidratação prolongada e auxilia na regeneração celular. “É uma fórmula que entrega resultados reais, com ativos naturais e rastreáveis. O consumidor valoriza isso cada vez mais”, diz Ana.

A ByEssence trabalha com cooperativas e comunidades extrativistas da região Norte, mantendo uma cadeia de fornecimento pautada por boas práticas e rastreabilidade. “Essa relação direta garante qualidade e promove o desenvolvimento local. Quando remuneramos bem um insumo que antes era descartado, toda a cadeia se fortalece”, conclui.

Cupu do Quintal transforma quintais ribeirinhos em rede produtiva

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro, no Amazonas, o que antes era descartado agora vira renda. A Cupu do Quintal desenvolve geleias, doces e o próprio cupulate a partir da polpa e do caroço do cupuaçu, adquiridos de famílias ribeirinhas. O negócio nasceu da observação de um potencial subaproveitado nos quintais e roçados da comunidade de Tumbira e se expandiu organicamente para áreas vizinhas da unidade de conservação.

“Nossa relação com os produtores é natural – somos vizinhas. Começamos comprando dos quintais próximos, depois organizamos polos com freezers nas casas das famílias para facilitar a logística e garantir a qualidade dos insumos”, conta Raquel Luna Viggiani, co-fundadora do Cupu do Quintal. Com uma cadeia de suprimento que depende de barcos e da colaboração entre vizinhos, a rede construída pela empresa articula dezenas de famílias que agora veem valor econômico em manter árvores nativas em seus quintais.

A empresa produz desde geleias até nibs e cupulate, além de já ter desenvolvido manteiga corporal em escala artesanal. “A polpa do cupuaçu já era conhecida, mas o caroço era totalmente descartado. Hoje ele é uma das nossas matérias-primas mais valiosas”, explica Raquel. A proposta é gerar um ciclo virtuoso de produção e reaproveitamento, com impacto direto na renda das famílias e na conservação da floresta.

Para manter a qualidade e garantir boas práticas, a Cupu do Quintal também distribuiu kits de higiene e cartilhas de orientação aos fornecedores. O investimento veio por meio do programa Sinapse da Bioeconomia. “Sem o capital da Jornada Amazônia, provavelmente teríamos encerrado a operação. O programa nos permitiu estruturar polos de coleta, desenvolver novas embalagens, testar o cupulate e lançar nosso site. Foi essencial para continuarmos crescendo”, diz Raquel.

Além do mercado local e do turismo regional – onde os produtos ganham destaque como presentes e souvenirs sustentáveis –, a marca observa um crescimento do interesse vindo do Sudeste e outras regiões do país. A expectativa é ampliar a escala sem abrir mão da identidade artesanal e do impacto socioambiental positivo.

KupuLatte: fermentação e inovação na fronteira do cupulate

No Amapá, a startup KupuLatte nasceu da curiosidade científica e evoluiu para um negócio de bioeconomia com foco em inovação de produto. Evelyn Melo da Silveira, CEO e fundadora da KupuLatte, iniciou os testes ainda durante a graduação em engenharia química, inspirada por um estudo da Embrapa que propunha a fermentação das sementes de cupuaçu como alternativa ao cacau. Com o incentivo de colegas e o apoio do programa Sinapse Bio, ela transformou a ideia em uma marca que aposta no potencial do cupulate como produto gourmet.

“O cupulate não vem para competir com o chocolate de cacau. Ele representa uma alternativa, com sabor único, e uma oportunidade de valorizar uma cadeia ainda pouco explorada”, afirma Evelyn. A marca já iniciou sua operação comercial e, mesmo com os desafios de estrutura e escala, começa a se firmar como uma referência na produção do derivado amazônico.

A principal dificuldade, segundo Evelyn, foi adaptar o processo produtivo para além do laboratório e enfrentar questões logísticas, como a aquisição de equipamentos no estado do Amapá. Mas o entusiasmo com o produto e o apoio da Jornada Amazônia foram decisivos. “O Sinapse Bio nos deu ferramentas, mentores e capital semente. Foi nosso ponto de partida”, destaca.

Hoje, a matéria-prima vem de produtores locais, inicialmente parentes e conhecidos, e atualmente fornecedores captados em feiras e eventos. Durante o período de entressafra, a equipe trabalha em estratégias para garantir o fornecimento nos meses seguintes. “Queremos nos tornar referência em produtos derivados do cupuaçu, e o cupulate é nossa porta de entrada”, diz Evelyn.

A KupuLatte também defende a valorização da semente do cupuaçu como um ativo estratégico na cadeia da sociobiodiversidade. “Essas sementes não são resíduo: são riqueza. Promover seu reaproveitamento é parte de uma lógica de economia circular que queremos fortalecer na região amazônica”, conclui.

Uma floresta mais valiosa em pé

Os três negócios mostram como ingredientes nativos podem ganhar escala e sofisticação sem romper com os valores da floresta. Essa lógica é justamente o que sustenta a atuação da Jornada Amazônia, iniciativa da Fundação CERTI que busca tornar a bioeconomia uma alternativa concreta ao modelo predatório na Amazônia.

“Ao apoiar negócios baseados na sociobiodiversidade, conectamos saber tradicional, inovação tecnológica e oportunidades de mercado. Produtos como os derivados do cupuaçu simbolizam esse novo ciclo de valorização da floresta em pé”, afirma Janice Maciel, Coordenadora Executiva da Jornada Amazônia.

A Jornada opera em múltiplos estágios – desde a formação de talentos com o programa Gênese até a atração de investimentos via Sinergia Investimentos – e se tornou referência na articulação de redes e no fomento à bioeconomia como vetor de competitividade e desenvolvimento sustentável.